Eu atravessei o tempo, as décadas, as mudanças por amor. Eu sei.
Com toda a certeza que existe no mundo eu estava louca, porque ninguém escutava
aquelas vozes, somente eu. E por pior assustador que seja nós ainda estavamos em um
sonho, ou melhor dizendo; PRESOS NELE! Mas se era um sonho, então porque ter medo?
Que eu o enfrentasse! Cedo ou tarde eu iria acordar...
F: -Gente, vem. Vamos pelo menos tentar perguntar alguma coisa para alguém.
Andamos pelas ruas e paramos em frente a uma banca de jornais, em seguida passou um homem muito bem vestido e perguntei que horas era:
- São 10:25 da manhã.
Me respodeu com gentileza. Então tivemos a simples e brilhante ideia que ler os jornais que estavam atráz de nós, eu não vi muito bem o dia, mas o ano era 1958.
Que país estavamos? CUBA!!!
Pior ainda... só tinhamos a roupa do corpo, sem casa, não conheciamos ninguém, e muito pior... não tinhamos dinheiro.
*
Daquele dia em diante passou-se uma, duas, três horas; um dia, um mês, muitos mêses.
Como conseguimos dinheiro? Arranjamos instrumentos musicais e começamos a fazer o nosso "show ridiculo" no meio da rua - pura sorte, porque na nossa década nós tinhamos uma
bandinha - até que conseguimos arrecadar uma boa grana. Tinha umas pessoas que gostavam
e outras que achavam o fim do mundo - elas faziam cara de indecencia - mas nós relevamos, afinal em 1958 ninguém conhecia Seu Jorge, Beirut, McFly, Legião Urbana, Cansei De Ser Sexy, Juanes e nem Cafe Tacvba.
Depois disso alguns dias se passaram até formarem mêses e as coisas foram se encaixando (arrumamos emprego e um lugar para morar) eu começei a trabalhar como fotografa em um jornal local e a ''nossa'' casa era bem confortavel - nem tanto porque era um espaço para 5 pessoas.
Em dezembro daquele mesmo ano o exército rebelde de Cuba, juntamente com Fidel Castro venceu Fungêncio Bastista e implantou o socialismo no país e pela primeira vez eu realmente
me dei conta do que estava fazendo ali. Eu me dei conta do que significava aquele ''sonho'', as vozes, aquele lugar, o país.. a época... o ano.... Cuba. O significado daquilo era: Che e Eu, e então eu entendi as vozes, pois, naquele dia em que vi o poster eu desejei Guevara somente para mim
e aconteceu.. EU NÃO ESTAVA LOUCA!
Em umas das comemorações que os guerrilheiros fizeram eu fui cobrir a edição fotografica e
pela primeira vez eu vi ele. Já não era mais um poster, era real, era lindo.
Assim que cheguei e entrei no local onde estava se comemorando a vitória sob Bastista eu paralisei, e adivinha? Guevara foi a primeira pessoa que vi. Foi muito estranho mas fiquei feliz.
Me aproximei do grupo de homens e senti meu rosto queimar levemente o que me fez sentir uma grande idiota. Claro que eu não queria chamar atenção, mas bem no fundo queria tanto que ele olhasse para mim. Depois fui me apresentar e obviamente fiz isso com Fidel Castro que também estava lá, e ele foi muito simpatico comigo o que de imediato me provocou grande

afeição. Em seguida me apresentou aos outros guerrilheiros como a fotografa mais jovem que ele já vira na vida, e o único dentre os homens que me chamou atenção - fora o Che - foi Camilo Cienfuegos, não pelo seu ''físico'', mas pelo tamanho de sua barba, fora que o rosto dele me parecia cômico e ele também foi super legal comigo, me fez rir o tempo inteiro que estive entre
os varios rebeldes. Camilo realmente parecia um Santa Claus latino.
Como meu trabalho pedia, eu comecei a tirar algumas fotos; antes, durante e depois da comemoração. Com total dedicação eu queria tirar umas fotos somente de Che, mas depois das primeiras duas tentativas eu desisti, pois, sempre que o focalizava ele me olhava com uma dureza no rosto. Me senti inteiramente ridicula em pensar em insistir com a câmera na mão.
Apesar de tudo eu estava tão feliz, para mim era como estar em cima de um mar de perolas na frente dele. Claro que ele nunca olharia para mim de um jeito que pelo menos eu gostasse, porque ele tinha aliança em uma das mãos. ''ESQUEÇA ISSO'' mentalizei comigo mesma.
Ao fim do meu trabalho eu já estava saindo quando Fidel me chamou:
- Você está começando a tirar fotos agora não é mesmo?
Simplesmente balancei a cabeça positivamente. E ele ainda perguntava:
- Olhe, aqui tem uma pessoa que já trabalhou com fotos, se a senhorita quizer... eu posso pedir a ele que te ajude.
- Me ajudar? - ELE? Então era um homem que iria me ajudar? E se fosse o Che? Segurei minha expressão entusiasmada por uns segundos. E Fidel respondeu:
- Claro! Para você coseguir poses boas e aprender melhorar os ângulos... essas coisas.
- Ah sim... bem, adoraria. Se essa pessoa não se emportar. - desta vez eu não retrai minha cara de super felicidade, afinal eu realmente tinha gostado do jeito do senhor Castro. E pela ultima vez naquele dia ele me disse:
- Tudo bem então, quero você aqui amanhã às 8:00 da manhã. Até..
Se virou e foi se juntar com seus guerrilheiros.
- Até amanhã então senhor Castro.
Meio que gritei, pois, ele já estava a alguns metros de distância.
E fui para casa com os sentimentos mais felizes da minha vida. Fui também pensando no Che (obviamente) e estava torcendo para que o meu professor fotografico fosse ele.